Empreender é amar

Nesta minha vinda a Cabo Verde, a convite da AJEC e da Embaixada de Portugal e com o apoio logístico da Associação Acarinhar,  tive a oportunidade de dar formação sobre empreendedorismo a um grupo alvo muito especial:
mulheres empreendedoras e mães de meninos com paralisia cerebral.
O que quer isto dizer?
Quer dizer que estas mulheres são  mães que, para além do auto-emprego, não têm outros meios para sustentar a sua família…. é, portanto, um empreendedorismo muito inexperiente.
Estas mulheres, algumas das quais vivem na Cidade da Praia, outras vivem no interior da ilha, vieram para esta formação e trouxeram os seus filhos porque, simplesmente, não têm onde ou com quem os deixar. Não só são mães como são cuidadoras e têm, ainda de providenciar a sua auto-subsistência. Percebi que são guerreiras, algumas faziam longas deslocações, saindo de casa antes das 6 da manhã para poderem participar nesta formação, fazendo-se acompanhar dos filhos.
Era um grupo grande, de aproximadamente trinta mulheres e nenhuma encontrou qualquer impedimento para participar. Por se tratar de um grupo alvo muito específico, dada a sua natureza e simplicidade, adaptei a minha linguagem e abordagem, aprendendo todos os dias com as vicissitudes deste grupo de mulheres que dependem de si próprias para gerir a sua vida financeira. São, principalmente, pequenos negócios que precisam de alguns retoques para se profissionalizarem.
Comecei por fazer um diagnóstico:
  • perguntei-lhes qual era o seu sonho
  • qual era o negócio actual
  • o que é que precisariam para terem maior rentabilidade, um rendimento superior.
Cada uma partilhou os seus sonhos, as suas ideias e necessidades e encontrei, assim, pequenos diamantes para esculpir:
1) uma quer ter uma lanchonete;
2) outra vende à porta de casa, por isso precisa de ter electricidade, mas a electricidade não chega onde ela vive então precisa de ter painéis solares…
3) outras senhoras gostavam de ter uma caixa hermética para venderem o peixe fresco;
4) outras são cabeleireiras e fazem domicílios, levam os filhos com elas e, por isso, gostavam de ter um espaço para os seus serviços de estética.
São negócios simples, muito primários, que correspondem, também, às necessidades daqueles a quem se dirigem.
Estes são os sonhos destas mulheres.
Questionei-as relativamente às suas dificuldades que tinham e, por incrível que pareça, nenhuma delas me disse que a sua dificuldade é ter um filho deficiente e ter de o levar sempre consigo. Incrível, não é?
As dificuldades que me apresentaram respeitam a questões que podem facilmente ser resolvidas ou seja: financiamento, orientação sobre questões legais e acompanhamento.
Já empreendem, só precisam melhorar a forma como o fazem e receber orientação em relação à melhor forma de distribuir o valor de financiamento que recebem e de re-investir para fazer crescer o seu pequeno negócio.
A melhor – e maior – lição que daqui podemos retirar não é profissional mas pessoal, pela forma como, com as dificuldades todas que têm, os filhos com paralisia cerebral que as acompanham permanentemente, os problemas que identificam são práticos e de carácter profissional, nunca pessoal. O problema não é a sua vida familiar, isso não é problema para estas mulheres. Mãe e filho são apenas um, duas pessoas numa só, carregam com eles ao colo, são mulheres muito fortes e as suas dificuldades são claramente, orientação, financiamento e acompanhamento.
Re-aprendi o que me esforço por não esquecer diariamente: o amor une, o amor faz e, para elas isto é amor, os seus filhos são amor e só querem dar melhores condições de vida às suas famílias. Relativizemos: os nossos problemas são muito menores em relação aos problemas destas mulheres. Aquilo que, para nós, que temos filhos saudáveis, seria um grande problema, para elas não é e, isto, é amor incondicional, porque o amor existe.
Este foi um desafio muito maior do que o desafio de formar empresários de alto rendimento porque para além das ferramentas práticas, estivemos a trabalhar o “eu” destas mulheres, a sua mentalização, a par das ferramentas de marketing, vendas e publicidade, para que percebam como podem vender ou que slogan usar para o seu produto. Entre outras coisas, criámos um slogan para cada negócio, praticámos mindfullness e meditação em conjunto e, mulheres que nunca sorriem, vi-as a sorrir e a distribuirem abraços numa felicidade genuína.
Ouvi, repetidamente, “obrigada por nos terem incluído e obrigada pelo seu amor”. Só por isto Vale a pena!
Espero que  as organizações em Cabo Verde, com este grupo identificado e as necessidades diagnosticadas, com o relatório que preparei, possam com os outros parceiros, criar a ponte entre este grupo de mulheres e as instituições que as podem ajudar a concretizar os seus negócios. E que esta ponte seja de orientação ou acompanhamento para que elas tenham acesso à informação, quem as ajude a fazer e a pôr em pratica, porque o financiamento existe, só é necessário aplicá-lo para que esta economia se desenvolva.
Grata à vida por esta oportunidade e prometi voltar daqui a um ano para validar a evolução de cada caso e de que forma as minhas recomendações foram aplicadas, quer pelas Organizações Responsáveis, quer pelas próprias Empreendedoras. Se este grupo alvo tiver sucesso como caso piloto, então a receita já está criada e tudo apenas porque #oamorexiste 💜
Facebook Comments